EDITORIAL
LIRISMO E POLÍTICA![]()
DOS VILÕES BURGUESES ÀS MULATAS SENSUAIS
Ele percorreu um caminho de 60 anos de produção literária, entre a apologia revolucionária e o tempero afrodisíaco de uma receita literária exclusiva. Com 37 livros escritos, e traduzidos em quase 50 idiomas, Jorge Amado chegaria aos 89 anos na próxima sexta-feira, consagrado como um dos maiores autores brasileiros de todos os tempos.
>>>> Mais do que o sucesso de venda do seu primeiro livro, "O País do Carnaval", surgido no final de 1930, o que deu o primeiro sopro de notoriedade ao jovem escritor baiano foi a apreensão, pela polícia, de seu segundo livro, "Cacau", lançado e recolhido das livrarias em 1933. Pouco antes da ditadura getuliana instalar-se no Brasil, Jorge Amado de Faria, que assinava somente Jorge Amado, publicou no primeiro número da "Lanterna Verde", em maio de 1934, um artigo em que afirmava que a situação do mundo era de tal forma trágica que aquele que não estivesse de um lado, estaria necessariamente do outro. Os escritores eram católicos ou comunistas, e não havia uma terceira posição.
No Brasil, desde então e num longo futuro aberto à sua frente, a esquerda e a direita tinham a convicção de que estavam a um passo do poder. Jorge Amado havia tomado sua decisão: estava com a revolução russa, comandada por Stálin, e no Brasil com Luís Carlos Prestes, sobre que o escritor começou a preparar um livro.
EXÍLIO
México, Uruguai, Argentina, foram seus pousos no exílio, enquanto durou a repressão mais dura do Estado Novo, e os livros tinham de passar pela censura do DIP. Terminada a guerra e derrotado o ditador, Amado era redator-chefe de "Dom Casmurro", publicação politicamente avançada que se dedicava às letras, e logo foi eleito deputado federal pelo Partido Comunista do Brasil, por São Paulo.
Em 1948, os comunistas tiveram sua legenda cassada e Jorge Amado mudou-se para a Europa, onde viveu em Paris e Praga, produzindo sem cessar, vivendo exclusivamente de literatura. Em 1935 havia aparecido "Jubiabá", que muitos consideram seu maior romance. Naquele mesmo ano surgiram "Moleque Ricardo", de José Lins do Rego, "Os Ratos", de Dionélio Machado e "São Bernardo", de Graciliano Ramos, e ainda assim Jorge Amado se destacou.
Em 1943 havia aparecido, logo depois de "Terras do Sem Fim, um romance feito a cinco mãos, "Brandão Entre o Mar e o Amor", em que Jorge Amado fez uma parte. É obra quase desconhecida mas interessante porque é difícil precisar a colaboração de cada um dos bons escritores que a compuseram: Graciliano Ramos, Aníbal Machado, Raquel de Queirós e José Lins do Rego, além do escritor baiano. Continuava a fazer o "romance social e proletário", e ainda chegou a "Seara Vermelha" fazendo boa literatura, apesar de engajada.
Oswald de Andrade foi cruel com ele, depois que mudou suas convicções, chamando-o de "bardo nazi-baiano", como a Luís Carlos Prestes havia chamado de "obreirista visionário". O mesmo Oswald, em artigo no "Correio da Manhã" de 18 de abril de 1952, fala muito mal do livro de viagens de Jorge Amado, "O Mundo da Paz". A crítica que o escritor faria de si mesmo quarenta anos depois, Oswald fez então com requintes de maldade.
ACADEMIA
Aí veio a eleição do escritor para a Academia Brasileira de Letras, em 1954, exatamente quando se pensava que Jorge Amado não faria mais, doravante, que obras de apologia revolucionária em que os heróis eram fatalmente proletários e os burgueses os vilões da história.
Amado ocupou a cadeira de Otávio Mangabeira, autor de um discutido "Machado de Assis", em que resumia sofrivelmente a obra do grande autor de "Dom Casmurro". Nessa época, o crítico Wilson Martins, no "Estado de S. Paulo", lembrava que Mangabeira havia instituído no Brasil um debate já encerrado em outros países: o de saber se o "Reader's Digest" é um bom modelo literário. Mas logo depois, Jorge Amado, voltou à vida literária com surpreendente vigor, produzindo "Gabriela, Cravo e Canela" (1958) e pouco depois "Os Velhos Marinheiros" (1960).
Essa ressurreição, no entanto, nunca impediu que alguns críticos vissem Jorge Amado como responsável pelo enxame de romancistas de um certo gênero que se multiplicou nas letras brasileiras. Mas ninguém é totalmente culpado pelas influências que exerce, e o novo escritor, o de "Gabriela "era pai de uma deliciosa narrativa em que a sensualidade punha a mesa. É verdade que "O Cavaleiro da Esperança", uma biografia heróica e fantasiosa de Prestes, chegava à sua nona edição, com mercado garantido nos grandes centros brasileiros.
O mundo estava então ainda longe da "perestroika", e Amado distante do seu "mea
culpa". Mas ele era, a essa altura, muito mais do que "um mero baiano romântico e sensual", como se havia definido no passado. Os excessos ideológicos foram uma doença mundial, e sua obra anterior garantia-lhe a justa fama de escritor.
As primeiras pinturas da vida baiana ("Cacau" e "Suor") valiam pelo lirismo, não pela aparência exterior de "romance proletário". Os amores marinheiros que vieram depois ("Jubiabá", "Mar Morto", "Capitães de Areia") eram poéticos e algumas vezes muito fortes. Os livros de pregação política eram cansativos para quem não participava da "torcida" ("O Cavaleiro da Esperança", "O Mundo da Paz"). Os quadros da região do cacau foram, dos antigos, possivelmente os melhores ("São Jorge dos Ilhéus", "Terras do Sem-Fim"). Mas são as crônicas de costumes provincianos que caracterizam o novo Jorge Amado ("Gabriela", "Dona Flor e seus Dois Maridos", "Teresa Batista Cansada de Guerra", "Tieta do Agreste", "Tenda dos Milagres" etc.). Com 60 anos de produção, cerca de 30 livros escritos, quase todos traduzidos em cerca de 50 idiomas, o escritor faz agora 80 anos consagrado como um dos maiores autores brasileiros de todos os tempos.
A certa altura de sua vida e como efeito da extraordinária popularidade, que o cercou sempre, Jorge Amado viu-se forçado a escrever longe de sua casa em Salvador, na Bahia.
Primeiro em Portugal, depois em Paris, ele e sua companheira há 50 anos, a escritora Zélia Gattai, escrevem e tratam da edição dos seus livros. Amado em 1992 interrompeu o projeto de "Boris, o Vermelho", uma bem-humorada penitência do seu passado stalinista, para adiantar um livro de memórias que afinal não concluiu. "Navegação de Cabotagem " é qualquer coisa nessa linha, e chegou logo às livrarias. Um pouco adiante, nos primeiros dias de setembro, em 1992, seria lançado "Bahia Amada Amado", com trechos dos principais livros do escritor e a fotografia soberba de Maureen Bissilliat. Essa obra tebe como subtítulo "O Amor à Liberdade e A Liberdade no Amor". Uma nova, uma antiga, sua eterna declaração de amor à Bahia, ao País em que nasceu, à Humanidade de que é observador e cronista incansável.
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